Estudo experimental sobre o enviesamento atencional nos cuidados médicos durante a pandemia de Covid-19

Filipa Madeira, Alexandre Vieira, Cicero R. Pereira e Emerson Do Bú, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Em diversos países, a incidência, prevalência e taxa de mortalidade do vírus da Covid-19 afetaram desproporcionalmente pessoas não brancas, mas até ao momento não se dispõem de dados suficientes que permitam explicar as causas desta disparidade. Será que existem disparidades entre brancos e negros na admissão em unidades de cuidados intensivos? Estarão os profissionais de saúde, de forma não consciente, mais propensos a prestar maior atenção a pacientes brancos, num cenário de rutura de recursos essenciais à preservação da vida de pacientes? O presente estudo procurou explorar se, num cenário de recursos médicos limitados, a reação de estudantes de medicina brancos portugueses a pacientes é afetada pela cor de pele do paciente. Utilizando um paradigma experimental, os investigadores analisaram se a exposição a objetos associados a cuidados intensivos (vs. objetos neutros) aumentava a atenção dos estudantes de medicina brancos, e se essa atenção a estímulos gerados pelos cuidados intensivos era ainda maior quando precedida por faces brancas (vs. faces negras). Os resultados mostram que a atenção dos estudantes de medicina foi significativamente maior a estímulos de cuidados intensivos do que a estímulos neutros, mas que não houve diferenças estatisticamente significativas na sua atenção a estímulos de cuidados intensivos após exposição a uma face branca ou uma face negra. O paradigma utilizado permitiu captar a atenção seletiva num contexto totalmente novo – gerado pela pandemia de Covid-19 – sugerindo que pode vir a ser utilizado em estudos futuros na investigação médica, enquanto instrumento para compreender os processos de atenção.
Pontos-chave
  • 1
       Este estudo visou examinar se estudantes de medicina brancos prestam mais atenção a objetos associados a cuidados intensivos (por exemplo, um ventilador de respiração mecânica) do que a objetos não associados a cuidados intensivos (por exemplo, um liquidificador), e se a sua atenção a estes objetos é maior quando expostos primeiramente a uma face branca vs. face negra.
  • 2
       Uma tarefa de dot-probe é um paradigma experimental desenvolvido para avaliar a atenção seletiva. Esta tarefa foi utilizada neste estudo para medir a atenção visual dos participantes a cuidados intensivos após serem expostos a uma face branca ou uma face negra.
  • 3
       Os investigadores mediram o tempo que se passou entre quando um ponto apareceu no ecrã e o participante carregou na tecla do teclado de computador correspondente à localização do ponto. Quanto mais rápida é a reação, mais o estímulo capta a atenção do participante.
  • 4
       A reação automática dos participantes a estímulos de cuidados intensivos foi significativamente mais rápida do que a estímulos neutros. A resposta dos participantes a estímulos de cuidados intensivos foi igualmente rápida após a exposição a uma face branca ou uma face negra.
  • 5
       O paradigma utilizado teve sucesso na captação do enviesamento atencional num contexto totalmente novo - gerado pela pandemia de Covid-19 - sugerindo que pode vir a ser utilizado em estudos futuros em investigação médica, enquanto instrumento para compreender processos atencionais.

Durante a tarefa de dot-probe, os participantes visualizaram duas imagens no ecrã do computador, um ao lado do outro. Uma das imagens representava um objeto associado a cuidados intensivos e a outra era neutra. Após as imagens desaparecerem, um ponto aparece no ecrã, situado no mesmo sítio de uma das duas imagens anteriores. Os participantes foram instruídos a indicar a localização do ponto o mais rapidamente possível, carregando na tecla correspondente do teclado. A rapidez com que reage à localização do ponto indicou a atenção do participante à imagem: quanto mais rápida a resposta, mais a imagem captou a atenção do participante. Na Figura 1 observa- se que o tempo de reação foi significativamente mais curto (ou seja, mais rápido) nas imagens representativas de cuidados intensivos do que nas neutras.

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