Participar ou ganhar? Mulheres, homens e competitividade

Pedro Rey Biel, investigador Ramón y Cajal na ESADE-Universitat Ramon Llull
Nagore Iriberri, Ikerbasque research professor na Universidade do País Basco

Os homens ainda têm salários mais elevados, ocupam mais cargos de gestão do que as mulheres e sofrem taxas de desemprego mais baixas. Porque é que as mulheres não chegam tão longe quanto os homens na esfera profissional? O impacto diferencial das decisões relativas à maternidade e a paternidade na vida profissional das mulheres e dos homens tem sido frequentemente objeto de análise e discussão. No entanto, existem certos aspetos culturais e de socialização que afetam homens e mulheres de forma diferente quando estes competem entre si, sendo que tais aspetos acabam por ter um impacto em ambientes competitivos como é o próprio ambiente de trabalho.
Pontos-chave
  • 1
       Em termos gerais, a mera existência de um estereótipo negativo sobre um grupo faz com que os indivíduos desse grupo acabem por se sentir submetidos a um exame contínuo que os pressiona e levo-os a ter um desempenho pior, confirmando assim o estereótipo.
  • 2
       Fatores como os estereótipos de género, o tipo de tarefas em que competem, quem são os seus concorrentes ou a informação sobre o seu desempenho anterior nessa tarefa têm um notável efeito sobre a desvantagem das mulheres quando elas competem, o que, por sua vez, pode ter um impacto na sua situação no mercado de trabalho.
  • 3
       Em condições competitivas, estudadas em condições laboratoriais, as diferenças significativas de género no desempenho de tarefas só podem ser observadas em três situações: 1) quando existe um poderoso estereótipo de que as mulheres são piores para realizar uma determinada tarefa; 2) quando o estereótipo é reforçado fazendo os participantes se lembrarem de aspetos que evocam as diferenças de género; e 3) quando as mulheres mais negativamente afetadas são aquelas que acreditam que o estereótipo é verdadeiro.
Raparigas e rapazes no Concurso de Matemática da Primavera. Distribuição por género dos participantes nas diferentes fases eliminatórias do Concurso de Matemática da Primavera (por grupos etários).
Raparigas e rapazes no Concurso de Matemática da Primavera. Distribuição por género dos participantes nas diferentes fases eliminatórias do Concurso de Matemática da Primavera (por grupos etários).

O Concurso de Matemática da Primavera promovido pela região autónoma de Madrid é um caso da vida real que ilustra o preconceito de género nos processos competitivos e permite estudá-lo claramente. Trata-se de um concurso de matemática faseado com a participação de alunos do ensino secundário.

Dividindo os participantes em quatro grupos etários, observa-se que quase não existem mulheres que chegam à fase final até ao ponto que, para os estudantes mais velhos (16-17 anos de idade), não há nenhuma rapariga vencedora no concurso.

Cabe salientar que, para este concurso, são disponibilizadas as notas de matemática de todos os participantes e que, por delas, não se observa praticamente nenhuma diferença entre rapazes e raparigas. Assim sendo, o experimento mostra que o que está em jogo não é propriamente uma questão de conhecimento, mas sim de competitividade. Portanto, à medida que a pressão competitiva é maior, as diferenças de género nos resultados aumentam.

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Pedro Rey Biel , investigador Ramón y Cajal na ESADE-Universitat Ramon Llull
Nagore Iriberri , Ikerbasque research professor na Universidade do País Basco

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